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Café Literário: O amante da Madonna


– Vamos supor – ele disse – que a Madonna venha à nossa cidade. Você de certo acha impossível.

– Não acho – disse a mulher, colocando na mesa a velha cafeteira. A cidade era pequena e sem importância, mas ela não estava a fim de discutir.

– Pois é – continuou o marido – Então a Madonna vem à nossa cidade... A propósito, você sabe quem é a Madonna?

– Sei, disse ela, trazendo a leiteira.

– Me surpreende – ele, irônico. - Porque em geral você não sabe nada. Você é burra, mulher. Você não lê jornal, não ouve rádio, nem tevê assiste. Bom, mas como eu ia dizendo: a Madonna vem à nossa cidade. E faz um show. E aí eu vou assistir. Você vai dizer que é impossível, que eu sou um pelado, que nunca poderia comprar um ingresso para o show da Madonna. Você acha impossível eu ir a um show da Madonna?

– Não acho – a mulher colocou na mesa o pão e a manteiga.

– Bom, então eu estou lá no show da Madonna, ela cantando e dançando, um tesão de mulher. De repente, acontece uma coisa inesperada: o cenário começa a desabar. Você acha impossível isto? O cenário desabar?

– Não acho. - Ela colocou na xícara dele café e depois leite, bastante café e pouco leite, como ele gostava.

– Aí aquele pânico, e coisa e tal, e o empresário da Madonna aparece no palco e grita: um carpinteiro, pelo amor de Deus! Um carpinteiro para arrumar o cenário! E aí  eu vou lá e arrumo o cenário em cinco minutos. Você, claro, acha isto impossível.

– Não acho – disse a mulher, colocando pão com manteiga no prato dele.  Na verdade, o marido era um bom carpinteiro.

– E aí Madonna me olha, e num instante ela está apaixonada por aquele cara musculoso, simpático. E me convida para ir ao camarim dela depois do show. E aí eu vou, e ela se atira nos meus braços, e nos tornamos amantes... Mas é claro que você acha isto impossível. - A voz dele agora começava a se alterar. - Para você eu nunca poderia ser amante da Madonna. Para você eu não passo de um pobretão, de um fracassado. Com uma mulher como você, eu nunca poderia subir na vida. Nunca poderei ser amante da Madonna.  Porque, claro, você acha isto impossível.

– Não acho – disse ela. - Mas agora tome o café. Já é tarde, eu tenho mais o que fazer.

Ele continuava imóvel. Estava pensando numa coisa. Estava pensando em botar no quarto  um retrato da Madonna. Bem grande. E com uma linda moldura que, carpinteiro habilidoso, ele mesmo faria.

Moacyr Scliar

(O amante da Madonna. E outras histórias. 2ª ed. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1997,  p. 27-29)

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