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Não se sinta só, meu senhor


Não permita que os outros tirem a sua paz.

A paz vem de dentro de você mesmo. Não procure à sua volta.

Buda

Tá saturado, terráqueo? Com os impostos, com o trânsito, com a quantidade de álcool na gasolina? Com o mau comportamento das pessoas, com a cara de pau dos políticos? Com os atendentes de loja mau encarados? Com o preço da carne e do café, com a falta de vagas para estacionar no centro da cidade, com os buracos nas ruas?

Não se sinta só, meu senhor. Eu, tu, ele, nós, vós e eles. A verdade é que está todo mundo meio saturado, puto dentro das calças com uma cousa ou outra; quiçá com todas as cousas. E o que podemos fazer em relação a isso? É o que vamos aprender na teleaula de hoje.

Cara pálida, não tem um santo dia em que eu não me estresse no trânsito de nossa primorosa flor da Serra Fluminense. Esse e outros casos já inspiraram, inclusive, o desejo de umas férias em um resort intergaláctico ou de ir morar de vez numa caverna quando me aposentar. Tornou-se evidente, entretanto, que nem um nem outro é possível. Ora, bolas, fazer o quê. Foi pensando nisso que ergui minha cabeça, enquanto caminhava por uma calçada do centro do burgo, com as mãos nos bolsos das calças, chutando uma lata passeio afora, suspirando resignado.

E eu, que queria tanto ir morar numa caverna! Puxa vida, naquele momento eu me dei conta da (oni)presença do Pico da Caledônia, lá no alto, visível em quase todos os cantos e recantos de Nova Friburgo. Então, pensei: se a maioria de nós podemos vê-lo, ele também pode nos ver.

Dai, aborrecido leitor, imagine: quantas e quantas cousas esse senhor cambriano já não viu? Viu os artrópodes, os dinossauros, as eras glaciais. Viu o amor nascer e ser assassinado, viu as bruxas pegando fogo para pagarem os seus pecados, talvez até a arca de Noé cruzar os mares. Viu queimadas, enchentes, pessoas se abanando pelo calor ou praguejando contra o frio. Viu crises, tramoias e intrigas políticas. Viu cavalos transportarem pessoas, os primeiros carros, o trem chegar e também partir. Viu as brigas, as desilusões, a falta de respeito e as traições. Viu crimes, heróis e vilões. Ora, rapá: se o Caledônia (que é o Caledônia), viu tudo isso (e muito mais) sem se mover um centímetro de seu lugar, por que é que nós temos de reclamar, murmurar e escrever crônicas malcriadas? “Porque nosso coração não é de pedra”, diria alguém. “Puta que pariu, é verdade", penso agora, e coro ao perceber que isso faz muito sentido. Muito mesmo.

Suspiro resignado novamente e baixo o olhar. Bora chutar latinha. Não dá para ir para o espaço, tampouco ir morar numa caverna bem distante dos humanos. Ninguém aqui tem o coração de pedra para viver tudo isso sem ao menos dar um muxoxo aborrecido. E está tudo bem. No fim das contas, o segredo sempre esteve em nós mesmos, ter paz é encarar a vida com placidez e serenidade (mas é cada raiva que a gente passa…).

George dos Santos Pacheco

georgespacheco@outlook.com

* Publicado originalmente no Portal Multiplix em 20 de agosto de 2025.

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