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O valor das coisas

 

O valor fundamental da vida depende da percepção e

do poder de contemplação ao invés da mera sobrevivência

Aristóteles

Arroz, feijão, cenoura, batata, cebola, carne, cerveja e até ovos de chocolate. Não, não se trata de uma lista de itens para o almoço de Páscoa, domingo que vem, mas uma famigerada relação de produtos que estão custando os olhos da cara, um rim, ou alguma parte do corpo humano, única, pessoal e intransferível. Os preços estão, sim, pela hora da morte, mudando hábitos ou as cifras do cartão de crédito. E não sou eu quem está falando, não. Comenta-se em todo lugar: nos noticiários, salões de manicure e inclusive na porta do bar.

Apesar disso, as calçadas estavam, incrivelmente, apinhadas de gente carregando sacolas com sarapintados ovos pascais, a fim de presentear esposas, filhos, sobrinhos, afilhados e crushes. Segundo estatísticas, a data só não é melhor para o comércio do que o Dia dos Namorados, Dia das Mães e o Natal. Durma-se com um barulho desses.

Porra, oito conto, Doutor? Assim tu vai ficar rico… – reclamou Sabirico numa fisionomia grave, buscando correspondência em nossos olhares. O fato é que os preços subiam cada vez mais e o sobrinho do Balboa, novo administrador do boteco, não conseguia mais segurar a porcentagem repassada pelas distribuidoras. A mãe de alguém precisava chorar.

– Meu velho, está ruim para mim também, acredite. Se eu não mexer no preço, em pouco tempo fecho isso aqui. E olha que sobreviveu à pandemia, inclusive. Não é o que a gente quer, nem o que o meu tio queria… – respondeu o jovem, num semblante pesaroso, apelando para a emoção dos clientes – que também eram amigos de longa. Esperto esse garoto.

Debruçado no balcão, de frente para uma caricatura do Balboa pendurada na parede, eu observava um copo americano suado e com cerveja pela metade, pensando no valor das coisas… e não em seus preços. E isso incluía, evidentemente, os amigos. Doutor era esperto e desenrolado, apesar de jovem, seguia a mesma cartilha do tio no trato com os clientes. A cerveja a “oito conto”, os tira-gostos, o varejão… iam todos pro caderninho, independente de inflação, Mickey Mouse ou Coelhinho da Páscoa. E todos pagavam em dia (ao que eu saiba), porque era justamente esse o diferencial daquele bar, valor agregado e incorruptível.

– Os filhos da puta colocam a culpa em tudo, menos neles mesmos… – comentou Meio Quilo, numa clara referência aos governantes. O comentário era baseado em notícias recentes veiculadas na imprensa, sobre os possíveis vilões da alta dos alimentos. O El-Nino encabeçava a lista, junto ao resultado das safras, da balança comercial, e no caso das carnes, o preço dos grãos, que impactavam diretamente na produção das rações. Contudo, o tropel de transeuntes no passeio só aumentava, parecendo um monte de coelhos apressados. Ora, rapaz. “Quanto mais me apresso, mais atrasado eu fico”.

Ah, sim, o tal do valor agregado. Com a alta dos preços e mudança nos hábitos dos tupiniquins, o mercado precisa se reinventar, meu senhor. Na década de 1980, bastava um ovo de chocolate embrulhado em papel colorido (a gente fazia até pipa com aquilo) para uma criança sorrir de orelha a orelha, mas hoje em dia, eles vêm com um sem número de brindes. A garotada tá cagando e andando pra guloseima, estão interessados mesmo é no brinquedo. O brinquedo, o recheio, e o refrigerante grátis, são incentivos atraentes para comprar ovos de páscoa, uma dezena de pães ou um cachorro quente.

Ergui o olhar, ao despertar de meus devaneios. A essa altura, já não falavam dos preços, mas de futebol, os gols da rodada e os artilheiros. A inflação fora uma discussão vulgar, incidental e pontual – ninguém ia deixar de frequentar o bar do saudosíssimo Balboa por causa disso, é lógico. Assim como ninguém deixa de comer ovos de chocolate por causa do preço. Todo mundo reclama da inflação, mas no fim das contas, arca com o prejuízo e c’est fini, essa é a verdade. Encarei o relógio.

– Doutor, chega aí… – chamei, quando os demais se distraíram com os possíveis candidatos a campeão estadual. – Cara, tem um lugar, no centro do Rio, chamado Beco das Sardinhas. Reza a lenda que leva esse nome porque os donos dos bares ofertavam um prato de sardinhas fritas quando o cliente pedia a primeira cerveja. Acontece que a cerveja acabava e restava ainda a sardinha. Resultado: o camarada comprava mais cerveja para concluir, restava a cerveja, comprava mais sardinha e por aí vai.

– A ideia é boa… – murmurou ele num sorriso. – Ideia muito boa… – concluiu, meneando a cabeça afirmativamente, mirando um ponto qualquer nos fundos do bar.

– Nesses tempos, é preciso ter feeling. Coisas boas surgem em momentos difíceis. – comentei antes de bicar o final da cerveja. Entenda bem, reflexivo leitor, eu podia ter ficado quieto e ido embora logo, mas o cara era meu amigo, sobrinho do meu amigo. E a amizade, a família, a esposa e os filhos, os sorrisos, os almoços no domingo da Páscoa, são coisas que têm valor. E aquilo que tem valor, não tem preço.

George dos Santos Pacheco

georgespacheco@outlook.com

Publicado originalmente no Portal Multiplix em 27 de março de 2024. 

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