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Crônica

 

Tudo isso já faz parte da rotina. E a rotina já faz parte de você” — Humberto Gessinger

Algumas crônicas atrás mencionamos certo esquecimento que nos atinge vez ou outra. Lembra disso? Curioso que ele ataca justamente quando mais precisamos da memória. Por isso é que aqueles que vieram antes de nós registravam as cousas em seus diários, hábito mui saudável a meu ver, que além do benefício de puxar a orelha da mente, funciona muitíssimo bem como catarse.

Alguns leitores hão de considerar quase supérfluo acentuar o fato de que nossa memória não é mais como antes, ora, isso é óbvio e quase ululante, diria Rodrigues. Mas o cronista que se preza carrega consigo ao menos um bloquinho onde possa anotar as ideias que se pode desenvolver bem num desses palavrórios, a fim de não deixá-las escapar numa esquina vulgar da cidade.

Pois esta crônica é isso: um apanhado de pensamentos que não foram dignos de protagonismo em seu momento e que agora dão as mãos compondo uma insólita ciranda do comportamento. O senhor acha isso estranho? Espere só pra ver o que o aguarda nas águas supostamente mansas dos parágrafos do sul.

1 — Sem destino

Quando deixo minha casa pela manhã o sol ainda está acordando, esticando seus raios preguiçosamente acima da cabeça num prolongado bocejo. Levo a esposa ao serviço, os filhos ao colégio e sigo rumo à repartição.

Ora, no caminho, parei num semáforo da avenida. De fato, o que não falta em Nova Friburgo, é sinal de trânsito, mas creio que nem todos as sinaleiras do mundo seriam suficientes para garantir ao nosso burgo segurança e fluidez viária; seria necessária a atuação de guardas de trânsito e, quem sabe, querubins e santos espalhados por aí — além de muita reza — para o negócio ser minimamente praticável.

Sim, como disse, parei no sinal. Reduzi a velocidade à distância para não ser necessário demasiado tempo naquelas condições. Foi quando que veio um motociclista pelo corredor, seguido de outro e mais outro. Ocuparam a frente dos carros, sobre a linha que antecede a faixa de pedestres. Mais um, dois, três… pela direita, pela esquerda. Observei pelo retrovisor, intrigado: um enxame de motos avançava entre os veículos, ocupando a frente e os arredores dos automóveis, quase obscurecendo a luz do prematuro sol. Eram mais de trinta, eu acho e penso que jamais havia presenciado concentração semelhante, exceto em produção cinematográfica americana. Senti-me acuado, pequeno e impotente. Não demorará muito e será proibido transitar de carro em Nova Friburgo.

2 — Letrinhas miúdas

Descobri que não consigo mais virar uma ingênua e pueril cambalhota. Envelhecer é isso, caro leitor. Num dia, sobe-se uma ladeira até o topo, com fôlego de sobra para, no outro, alcançá-lo penosamente colocando os bofes pra fora. Num dia, lê-se uma bula de remédio até de olhos fechados, para no outro, as letrinhas não passarem de um borrão.

Então, terráqueo. Até pouco tempo atrás, os recibos de cartões de crédito no comércio mediam cerca de seis por seis centímetros. E é evidente que, dia após dia, as empresas buscam formas de cortar custos, ou potencializar os ganhos, interprete como quiser. Acontece que algum iluminado (deve ter sido promovido) descobriu que podiam reduzir o tamanho do papel (e junto dele, o das fontes). Meu senhor, já ultrapassei os quarenta faz um bom tempo e esse lance de letrinha miúda está me dando uma dor de cabeça terrível, pois não enxergo cousa alguma. Isso é um atentado à saúde pública, uma grave ofensa aos brasileiros e brasileiras que não enxergam de perto. Isso… isso aí é presbiopiafobia!

3 — Calma, calma! Não priemos cânico!

Hoje pela manhã, estive numa disputadíssima padaria no centro da cidade. Como os preços do estabelecimento são acessíveis, vende-se mais e os produtos estão sempre fresquinhos. É o legítimo paradoxo Tostines.

A padaria estava cheia, não é demais reforçar. Fiz meu pedido e entrei na fila do pagamento, que apesar de extensa, tinha notável e evidente fluidez. Havia apenas dois caixas em funcionamento e as atendentes, bastante ágeis, chamavam o próximo em curtos intervalos. Eficiência? Não, não necessariamente. Notei que uma delas, talvez aflita com o tamanho da fila — além da vigilância do patrão — seguia repetindo “próximo”, como um grito de guerra, mesmo que o freguês já estivesse a caminho. Quando chegou minha vez, para evitar que ela continuasse gritando, me adiantei, feito aqueles motociclistas retrocitados.

“Próximo, próximo, próximo, próximo…”

Não deu certo, é claro, e eu já fui pagar irritado (como se fosse muito difícil me irritar).

“Oito reais”, disse ela. Saquei às pressas um pequeno maço de notas de dois reais, mas como estavam um tanto surradas, conferi-las tomou algum tempo, pois as cédulas grudavam entre si. Impaciente, a funcionária começou a contá-las ainda em minha mão(!). “Dois, quatro, seis, oito. Oito reais.”. Nem sei se agradeci, se franzi a testa, se murmurei algo, enfim. Só queria sair logo da padaria e ir aborrecido para o trabalho, xingando entre os dentes em pleno às seis e trinta da manhã.

Pós-escrito

Paciente leitor. Esta crônica não é um apanhado de pensamentos desprezados, espalhados feito um baralho atirado. Não se trata do esquecimento, sobre a necessidade de anotar as cousas, sobre a política ou o trânsito na cidade. É sobre a súbita sensação de não-pertencimento, é sobre não dormir bem e despertar de mau humor, é sobre o medo de perder o emprego. É sobre aplaudir o que não se compreende, pois bater palmas implica bem menos responsabilidade do que questionar. É sobre a dificuldade em aceitar a passagem do tempo e em enxergar aquilo que está bem debaixo do nariz. É sobre tudo isso ser tão comum que já faz parte da rotina. O senhor acha isso estranho? Espere só pra ver.

George dos Santos Pacheco

georgespacheco@outlook.com

* Publicado originalmente no Portal Multiplix em 24 de setembro de 2025.

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