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A invenção da roda

 

É parte da cura o desejo de ser curado.”

Sêneca

Quando completei quarenta e três anos, decidi que seria fitness. “Fitness, substantivo masculino: conjunto de exercícios que favorecem a forma física”. É claro, para isso também seria necessário reduzir a ingestão de gorduras e carboidratos, açúcar, café e refrigerantes, afinal, ninguém precisa de mestrado ou doutorado para perceber que de nada adianta ir caminhando até o Ceará se não modificarmos os costumes – mas deixemos o acessório e sigamos em frente.

O caso é que a idade vai chegando, vai chegando; e a gente precisa fazer alguma cousa. Dói ali, dói acolá, falta fôlego indo, falta fôlego vindo... eu precisava fazer algo, não é? Todos nós precisamos. Entrelacei as mãos em frente do corpo, estalei os dedos e me dediquei a uma pesquisa no Gugou sobre as práticas físicas mais recomendadas para a meia-idade e (pá!) no mesmo dia comprei uma bicicleta. Mas não era uma magrela qualquer, não, meu senhor; era uma de alumínio, com retrovisores, suporte para garrafa d'água, farol, buzina e refletores. Além disso, comprei um capacete estiloso, óculos espelhados, luvas, bermuda e camisa em tecido micro dry. A loja virtual parcelou em doze vezes sem juros no cartão. Olha, que maravilha! Bora pedalar. Partiu!

Com todo o aparato pronto, eu já me sentia plenamente apto a iniciar meu futuro esporte predileto. Ninguém levou a sério, no entanto. Dona Maria riu, os meninos riram, talvez até os vizinhos tenham rido. Nota do autor: eu nunca fui bom de bicicleta. Não mesmo. Jamais tive bom equilíbrio e leveza, nem sequer solto uma das mãos do guidão; olhar para trás, nem pensar. Logo eu? Logo ciclismo? Quem imaginaria?

Eu imaginei. Faria parte, inclusive, daqueles grupos de ciclistas que pedalam de manhã cedo, à beira da estrada… Putzgrila, de manhã cedo? Não tinha pensado nisso; pela manhã, nos dias úteis, não seria possível. Domingo é dia de missa, então está fora de cogitação. Restava-me apenas o sábado.

“Se amanhecer nublado, vou precisar adiar…”, pensei, numa estreladíssima noite de sexta-feira. O sábado, porém, mostrava-se fabuloso, radiante, perfeito para atividades físicas. Levantei cedo, tomando o máximo de cuidado para não fazer barulho e acordar Dona Maria (Deus me livre e guarde!). “Fazer um lanche, ou não?”, pensei, já todo caracterizado de atleta, o uniforme com cheiro de ônibus executivo. “Talvez seja melhor pedalar de estômago vazio…”, refleti e tranquei a porta da cozinha sem tilintar as chaves.

Ajustei o selim do camelo, a tira do capacete e calcei as luvas. Que manhã linda, cara. Coloquei os óculos e montei na bicicleta, erguendo o pedal com o peito do pé e dando o primeiro impulso. Que céu maravilhoso! Vou até Amparo e volto, vai ser molezinha.

Na descida do morro, encontrei um ou outro conhecido, que acenava admirado; é claro que eu nem me atrevia a retribuir o gesto, apenas meneava a cabeça num sorriso simpático. O coração batia acelerado e eu expirava o ar fortemente e não tinha nem dez minutos que eu havia saído de casa. “Vou lá na patrulha rodoviária de Amparo e volto”. Agora eu sou fitness, ô, rapá!

As coxas e as panturrilhas já estavam doloridas, ameaçavam-me com arremedos de cãibras amparadas pelas mais manjadas explicações. Reduzi a marcha e a velocidade. Não havia necessidade de eu ir até a patrulha rodoviária, afinal; talvez na Parada Folly fosse suficiente. Olha esse sol! Que sol é esse, minha gente? Não é ainda inverno?

Passei com a roda dianteira num buraco que fez balangar todo a bicicleta. Puta que pariu, com tantos buracos, dificilmente eu chego na esquina com a magrela inteira. E esse tanto de mato na beira da calçada? Assim o pedestre vai caminhar na rua mesmo e eu não tenho nem como culpá-lo. Vai caminhar onde?

O suor escorria na testa e o vapor embaçava os óculos por dentro. Que calor, ativo leitor! Que calor! Como eu não estava habituado, o ideal seria eu começar aos poucos, não é? Também pensei nisso. Ninguém me apontará o dedo, “olha ali o Pachecão, aquele sedentário”. Não, ninguém faria isso; dado o contexto, é perfeitamente compreensível. Vou até a pracinha do bairro e volto.

Pracinha? Que pracinha? Quanto mais eu pedalo, mais distante parece ficar. Puta que pariu! Mudei a marcha umas três, quatro vezes, para lá e para cá, e o pedalar ainda parecia pesado. Final cut: pracinha é o cacete. Cheguei em casa duas horas depois, todo suado e esbaforido, com dez pães massa fina e duzentos gramas de mortadela, estrategicamente comprados no Mercado do Zé. É claro que eu disse para a família que havia apenas ido buscar o café da manhã – mas pergunte-me quantos sábados seguintes eu fiz a mesma coisa? A bicicleta está parada no quintal há quase um ano e já está calhando o senhor me parabenizar outra vez.

Esses camaradas que andam de bicicleta nos sábados de madrugada, à beira da estrada, enfrentando sol, chuva, vento, frio, cachorros e promessas de políticos; esses homens e mulheres que disputam espaço com carros, buracos, capim e latinhas de refrigerante atiradas pelas janelas dos veículos; esses, ofegantíssimo terráqueo, são heróis sem capa. Não é para qualquer um, não; engana-se quem pensa o contrário. Quanto a mim, reconheço: a preguiça é a mãe de todos os vícios, mas não fui eu quem a inventou não; a preguiça, caro leitor, é mais antiga que a roda.

George dos Santos Pacheco

georgespacheco@outlook.com


* Publicado originalmente no Portal Multiplix em 27 de agosto de 2025.


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