Pular para o conteúdo principal

É raro, mas acontece muito!

  


“As verdades podem ser nuas – mas as mentiras precisam de estar vestidas.”

Textos Judaicos

Encontrou o colega em pleno Alberto Braune, às dez da manhã. Foi pura casualidade, jamais imaginaria vê-lo novamente. Fazia quanto tempo? Vinte, vinte e cinco anos que não se viam? Achava que a última vez fora logo após o Ensino Médio, embora não tivesse certeza.

A calçada estava abarrotada de gente, era início de mês e muitas pessoas se dirigiam aos bancos para receber seus salários. Esbarrou no ombro de alguém e se virou para encarar o descuidado.

— Ei! Vê se olha por onde… – disse num tom grave, franzindo as sobrancelhas, aborrecida.

— Você? – disse o sujeito, surpreso.

— Você? – repetiu ela, ainda mais surpresa. Ele parecia ter parado no tempo – e isso não era, de nenhuma maneira, um elogio. Mantinha o olhar sedutor, o sorriso charmoso e a voz cadenciada, mas agora tinha algumas rugas e uns tantos cabelos brancos. Era magro, mas cultivava uma discreta barriga de chope; vestia-se feito um adolescente. Parecia um garoto velho.

— Nossa, que coincidência! – comentou ele, tentando puxar conversa.

— Quanto tempo, não é mesmo? – afirmou a mulher, buscando ser simpática, mas sem dar muito papo.

Foi então que aconteceu.

O velho amigo de escola ostentava uma meleca seca em uma das narinas, que se movia como uma portinhola com a entrada e saída de ar. “Eca! Que nojo!”.

— Você está ótima! E aí? Casou? – elogiou o homem, com ar galante. Mas a meleca depunha contra ele. Toda sua reputação de ex-galã juvenil fora por água abaixo por causa de uma simples catota no nariz.

— Casei, sim. Tenho um casal de filhos. E você? – respondeu ela. Era mentira, mas foi a melhor coisa que veio à sua mente para afastar as segundas e tantas outras intenções que ele pudesse ter.

— Ah, eu já casei, já me separei, já me amiguei. Agora tô na pista! – respondeu ele, com a meleca indo e vindo na narina direita, esboçando o famoso sorriso do Ensino Médio. “Duvido!”, pensou ela. “Deve ser casado (apesar de não usar aliança) e até ter filhos, mas repete essa conversa fiada para toda amiga do colegial que ele encontra por aí.”.

— Ah, sim. – comentou ela, tentando desviar o olhar da meleca animada, mas os olhos invariavelmente iam pousar no nariz mal apresentado do sujeito. “O que faço? Aviso ele?”, pensou ela, incomodada.

— Não quer me passar seu número? Estou pensando em fazer um encontro da turma... – pediu ele, puxando o celular do bolso. “Putz! Só faltava essa...”. Decidiu pelo espelhamento: começou a coçar o próprio nariz para ver se o homem imitava o gesto e fazia algo com aquela meleca nojenta. Nada!

— Seria bacana, não é mesmo? Você tem visto o pessoal? Nunca mais vi ninguém... – disse ela, em evasiva, consultando o relógio para disfarçar. “Meu Deus, o que eu vou fazer? Aviso ou não aviso? Vou falar.”.

— É raro, mas acontece muito! Na verdade, você é a primeira pessoa que eu vejo em anos. – respondeu ele num sorriso satisfeito. Aproveitou a passagem de um transeunte na calçada e diminuiu a distância entre eles dois, fazendo a meleca parecer ainda maior.

— Caramba, está na minha hora. Desculpe a pressa, mas tenho que ir! Foi um prazer te ver! – disse ela, numa pressa caricata. Esticou a mão para um aperto, mas desistiu a meio caminho e apenas acenou, dando meia-volta e seguindo pela calçada cheia de gente.

— Imagina, o prazer foi todo meu! A gente se esbarra por aí num dia desses! – disse ele, às costas da mulher, a voz se distanciando a cada passo que ela dava.

“Deus me livre e guarde!”, pensou ela. “Deus me ouça e os anjos digam amém!”, pensou ele. Ela caminhava apressada, evitando trombar com mais alguém – vai que dessa vez seja um ex-namorado com mau hálito? Credo!

Agora estava convencida de que o silêncio é o melhor conselheiro. Sim, sim. Não existe forma agradável de se alertar alguém sobre uma meleca no nariz, o mau hálito, convicções supersticiosas ou ideologias políticas equivocadas... definitivamente, não há. São o tipo de coisas que a pessoa deve descobrir por si mesma.

Caminhava apressadamente, tentando se distanciar ao máximo do colega e afastar de uma vez por todas a imagem da meleca de sua mente. Desconfiada, postou a mão espalmada em frente ao rosto e soprou, aspirando o ar profundamente, enquanto caminhava. Nunca se sabe.

George dos Santos Pacheco

georgespacheco@outlook.com

* Publicado originalmente no Portal Multiplix em 23 de julho de 2025.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Anônimo ajuda idosa a atravessar a rua

Anônimo: herói misterioso que conquista Nova Friburgo O super-herói Anônimo continua a surpreender os cidadãos friburguenses com seus atos heroicos. Ontem, ele foi visto ajudando uma senhora a atravessar a rua, garantindo sua segurança e tranquilidade. Essa não é a primeira vez que Anônimo demonstra sua bondade e cordialidade. Ele já foi visto cedendo seu lugar no ônibus para idosos, ajudando crianças perdidas a encontrar seus pais e até mesmo oferecendo um sorriso e uma palavra de encorajamento para aqueles que precisam. Isso quando não encontra uma vaga para um desconsolado motorista estacionar seu carro. A identidade secreta de Anônimo ainda é um mistério, mas especula-se que ele seja na verdade várias pessoas, tendo em vista sua capacidade de estar em vários lugares ao mesmo tempo. Independentemente de quem seja por trás da máscara, o povo friburguense é grato por seus atos heroicos e continua a se inspirar em sua bondade e generosidade. Anônimo é um verdadeiro herói para a cidade!...

Meu querido, meu velho, meu amigo

  “ Esses seus cabelos brancos, bonitos Esse olhar cansado, profundo Me dizendo coisas num grito Me ensinando tanto do mundo” Roberto Carlos Lembro de quando eu era criança, de caminhar com meu pai pelas ruas do bairro. Geralmente, era um sábado de manhã. Recordo o céu radiante, de encontrar os colegas dele no trajeto, do tom brincalhão e cordial de suas falas, do Tim Maia cantando com a Gal Costa em algum rádio naquelas bandas. Lembro de escolher balas de hortelã no baleiro da venda do Seu Lourival, lembro do som do baleiro girando, do papel de pão sobre o balcão, do cartaz da Coca-Cola na parede. O presidente era o Sarney (também me recordo disso), e política era assunto de gente grande, muito difícil de entender. Ainda não compreendo, mas sinto saudades do período em que eu podia me dar ao luxo disso. Mais saudades ainda tenho da segurança que eu experimentava de mãos dadas com meu pai; eu andava com a cabeça erguida, pois eu era tão pequeno e ele, daquele tamanhão t...

O mundo é pequeno demais para nós dois, quarto romance de George dos Santos Pacheco já está em pré-venda!

Já está em pré-venda o novo livro do autor friburguense, George dos Santos Pacheco. Editado pelo Clube de Autores, O mundo é pequeno demais para nós dois, está disponível para compra na loja virtual do Clube de Autores e nos melhores sites de e-commerce do país. O advogado carioca Mário Barcelos foi encontrado morto com um tiro no peito, em seu próprio carro, próximo à sua residência, no bairro das Braunes. Conhecido pelas práticas pouco ortodoxas em defesa de políticos e empresários envolvidos em escândalos de corrupção, Barcelos vivia há cerca de 28 anos em Nova Friburgo, prestando, eventualmente, assessoria jurídica a empresas da cidade. Autêntico bon vivant e solteirão convicto, o experiente advogado não deixa filhos. Era assunto recorrente dos colunistas sociais e a notícia de sua morte, em uma fria manhã de inverno, escandaliza a sociedade friburguense. No local do crime, apenas um revólver e um livro de George dos Santos Pacheco, o que leva o policial Avellar a questiona...

Mau tempo fecha Aeroporto de Nova Friburgo

Aeroporto Municipal Prefeito Heródoto Bento de Mello, em Conquista, fica fechado devido à forte neblina e condições climáticas adversas O Aeroporto Municipal de Nova Friburgo Prefeito Heródoto Bento de Mello, localizado em Conquista, teve suas atividades suspensas na manhã desta quinta-feira devido às condições meteorológicas adversas e à densa neblina que envolveu a região. Conforme relato da diretoria do terminal aéreo, a medida foi adotada visando garantir a segurança dos passageiros e tripulantes. A reduzida visibilidade, decorrente da neblina intensa, tornou impraticável a realização de operações aéreas com segurança. A equipe do aeroporto manteve estreita cooperação com as autoridades aeronáuticas para acompanhar as condições do tempo e definir o momento propício para retomar as atividades. Pouco antes das 8h, segundo informações dos funcionários do setor de atendimento, a situação foi normalizada, permitindo a liberação das operações. Em decorrência do ocorrido, três voos regist...