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Como assistir a um filme na TV


Parece tarefa fácil, mas não é não. Quando eu era garoto, era mais difícil ainda, é bem verdade. Tínhamos um único aparelho, um caixote pesadíssimo, com partes de madeira, em preto e branco (em que se colocavam telas coloridas por cima), que sintonizavam – quando sintonizavam – apenas quatro canais. De vez em quando o pai subia na laje e virava a antena “espinha de peixe” para melhorar a imagem: “Tá bom agora?”, gritava lá de cima; “Tá bom!” / “Tá ruim de novo!”, a gente respondia.

Voltemos ao futuro. Hoje, a minha TV tem uma série de canais, mas é praticamente monopolizada por programas infantis. Mal consigo assistir a um jornal em minhas horas de folga. Alguns desenhos animados chegam a ter uma temática adulta, para envolver a família toda, inclusive. Então, se eu quiser assistir a um filme com a esposa na televisão, a melhor forma é depois de as crianças dormirem (assistir a um filme no cinema pode custar até umas 80 pratas, sabia?).

Primeiro passo: colocar os filhos pra dormir. 

Lanchinho, dentes escovados, oração, e uma historinha lida em grupo. Deus abençoe, durmam com Deus. Com as crianças deitadas, se você não fez isso antes, procure um filme bacana na grade de programação dos canais disponíveis.

Segundo passo: procurar um filme bacana. 

Filme escolhido, começa em cerca de meia hora. Agora o terceiro passo: preparar um lanchinho.

Com as crianças deitadas, filme escolhido e lanche preparado, sente-se com sua mulher no sofá e converse um pouco sobre as coisas do dia a dia: o trânsito ruim, o pito que ela precisou dar no mais velho, o gás que acabou no meio da preparação do almoço… Opa, isso é coisa rápida, as logos da produtora e associados já estão aparecendo na tela. E você precisa conseguir um outro momento para conversar com sua esposa sobre o dia a dia, com mais calma, não é? Isso é coisa séria.

O filme contava a história de um grupo de adultos de meia idade que voltam à cidade natal para um encontro da escola do Ensino Médio, ou High School, na película americana. O personagem principal era um dos únicos casados e vivia uma crise com a mulher, e a presença de ex-colegas de escola o deixava em situações embaraçosas. Uma comédia bacana. Esperem aí, o Jim vai falar alguma coisa: acabou de encontrar com uma moça de camiseta transparente e short curto, o cabelo amarrado em um pesado rabo de cavalo.

– Amor, baixe o volume, vamos acordar as crianças… – disse minha esposa. Não ouvi o que Jim falou.

Não reclamei e baixei logo o som da TV. As crianças, a essa altura já deviam dormir pesadíssimo. Não, espere aí: o mais velho está acordado, está se remexendo na cama.

Jim e os amigos combinaram uma festa, como nos tempos de escola. A tal moça, da qual ele foi babá quando jovem, é vizinha de seu pai e está dando o maior mole para ele e…

– Mãe…

– Você ouviu?

– Ouvi o quê?

– Estão chamando…

– Não tem ninguém chamando.

– Tem sim.

– Mãe…

– O que foi meu filho?

– …

– Posso ligar o ventilador?

– Pode, meu filho, pode sim. – me adiantei para concluir a conversa mais rapidamente. Aproveitei a desculpa do barulho do ventilador para aumentar um pouco mais o volume. Minha mulher acatou, sem se incomodar.

Caramba! Típica comédia adolescente americana: a coleguinha do Jim ficou peladinha. Bêbada, está atacando ele dentro do carro; Jim tenta se esquivar, sem sucesso, mas ela desmaia embriagada. Jim precisa de sua mãe… Espere aí, mãe?

– Mãe…

– Estão chamando de novo?

– Estão.

– Mãe?

– O que foi, meu filho?

– Me dá um copo de água?

– Sim, filho. Um copo de água e ele dorme. Com certeza. O copo de água não falha nunca. O Jim… porra, cadê o Jim? Já está falando com a esposa em casa. Não entendi o que ele disse, o assunto não tem pé nem cabeça. Vai ver fazia sentido com a cena anterior.

– Boa noite, filho!

– Boa noite!

– Boa noite, filho!

– Boa noite, pai!

Agora sim. O garoto dorme e a gente consegue ver, finalmente, o filme. Minha esposa acabou de comentar alguma coisa que aconteceu hoje; eu ouvi, mas não escutei. Na verdade, não faço a mínima ideia do que ela disse – e se eu perguntar, vou tomar um esbregue. Pergunto ou não pergunto? Não pergunto. Vamos ver o filme.

Jim, com problemas no casamento e tentado pela vizinha gostosa, pede conselhos ao pai. “Sai da minha casa!”. Ahn? Como assim “sai da minha casa”? Jim e o pai sempre se deram tão bem…

Sai da minha casa!

Você é um vagabundo!

Para com isso, olha o que você está fazendo!

Eu não estou nem aí…

A mulher berrava totalmente descontrolada com o ex-namorado, com o qual tinha um filho. Levantei-me do sofá e me aproximei da janela, afastando a cortina com a ponta dos dedos. Sim, era isso. Quando estavam juntos, se desentendiam com frequência, mas agora, após ele ter arrumado uma nova namorada, a mulher passou a ter crises de ciúme em público.

Some daqui!

Você está ferrada, sua vagabunda! Nem pensão ele dá para o filho!

Sentei-me novamente e aumentei o volume da TV. O pai de Jim o aconselhava, ele precisava se entender com a esposa, afinal de contas. Usou como exemplo a vida dele com a mãe de Jim, antes de seu nascimento. Viviam como jovens namorados, mas com a chegada do filho, tudo mudou. As prioridades são outras, inclusive o marido passa a ser uma segunda prioridade para a mulher e Jim precisava ser paciente e maduro para compreender a situação. “Vai embora!”

Não faz isso!

Veja os meus braços… você me agrediu! Vou te denunciar! Você está preso!

– Não é possível! – murmurei incomodado. – O síndico não vai fazer nada?

– Mãe…

– Você sabe… em briga de marido e mulher…

– Ninguém mete a colher? Mas isso aqui é um condomínio!

– Mãe?

– O que foi, meu filho? Vai dormir! – determinei gesticulando o controle da TV na direção do garoto.

– O que está acontecendo?

– Jim, você me agrediu!

– Não está acontecendo nada! Vai dormir!

– Nossa, como você é grosso!

– Eu não fiz nada. Você invadiu minha casa, está me fazendo passar vergonha diante de meus vizinhos e ainda arranhou os braços para me acusar.

– Pai, eu já não sei o que fazer!

– É só um casal brigando, vai dormir!

– Sabia que já passa das dez?

– Eu quero que se fooooooooooda, queridinho! Você, essa vagabunda e todos os seus vizinhos.

– Jim, estou apaixonada por você, vamos relembrar os tempos em que você cuidava de mim?

– Não aumente mais o volume.

– Vai adiantar o quê? O garoto já está acordado!

– Mande ela sair daí! Ela está com medo? Mande ela vir aqui fora!

– Vai embora!

– Eu só vou embora depois que ela sair daí e vier falar comigo. Aliás, vou começar a quebrar tudo aqui, até ela aparecer. E vou começar por esse carro preto…

Poxa vida, isso não tem hora para acabar não? Organizei-me para ver esse filme e a ex-mulher do cara ainda resolveu quebrar tudo. O síndico, a essa hora, está dormindo pesadíssimo e ninguém vai meter a colher nessa briga… opa… espere aí! Ela disse “carro preto”?

– Ela disse “carro preto”?

– Disse sim… – respondeu minha esposa com os olhos vidrados na TV.

– Mas o carro preto é nosso! – esbravejei, levantando de um salto.

– Mas… e o filme?

– Que filme?

George dos Santos Pacheco

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